Em Junho de 1914, os tiros disparados por Gravilo Princip em Sarajevo contra o Arquiduque Francisco Fernando de Habsburgo foram suficientes não só para matar o príncipe herdeiro e a sua mulher, bem como para destruir os difíceis e ténues equilibrios dos Balcãs, o que precipitou o fim do Império Austro-Hungaro e serviram de catalisador para uma das mais sangrentas guerras da História da Humanidade.
Nessa segunda década do século XX, a economia mundial prosperava e, ainda assim, sentimentos nacionalistas e/ou imperialistas e "ideias por detrás da metralhadora, em vez de interesses" (citação muito livre da expressão dita ou escrita recentemente por Pacheco Pereira) conduziram a um conflito que não visava principalmente a maximização de ganhos e a minimização das perdas por parte dos beligerantes, visava antes em primeiro lugar a maximização das perdas dos inimigos.
Nos dias que correm, se juntarmos à crise económica e financeira e crise das dívidas soberanas que a Europa atravessa o cada vez maior afastamento que as populações sentem face à construção europeia e a enorme distância que têm dos centros de decisão - que deriva em grande medida da falta de consideração que os líderes europeus têm mostrado para com os seus concidadãos, o neo-colonialismo franco-alemão de que Rui Tavares falava no Público de ontem e o desrespeito formal para com os centros de decisão formais que ao que parece têm cada vez menor importância e o surgimento de um crescente preconceito do pelotão da frente, da "Europa da 1ª velocidade", do Norte contra o Sul ou do Centro contra a cada vez maior e mais próxima periferia - já não falamos só da Grécia, da Irlanda e de Portugal, falamos também da Espanha e da Itália, podemos ter misturado os ingredientes suficientes que apenas esperam de uma chama, um catalisador que leve ao fim do "Império europeu"e da Pax Kantiana em que vive a Europa há décadas - esquecendo a península balcânica no fim da Jugoslávia, um pequeno intervalo na História do velho continente.
Nunca podemos esquecer que os actores políticos e as populações nem sempre se comportam de uma forma racional. Parafraseando Niall Ferguson, "por mais complexa que seja a estrutura administrativa que estamos a estudar, jamais devemos perder de vista os instintos básicos escondidos no mais íntimo dos homens mais civilizados".